“Essa crença, que consiste em crer que o homem desceu de um estado de glória e de comunicação com Deus a um estado de tristeza, de penitência e de afastamento de Deus, mas que, depois desta vida, seremos restabelecidos por um Messias que deve vir, sempre existiu sobre a terra. Todas as coisas passaram, subsistindo aquela para a qual todas as coisas existem.
Os homens, na primeira idade do mundo, foram arrastados a toda sorte de desordens, embora houvesse santos como Enoc, Lamec, e outros, que esperavam pacientemente o Cristo prometido desde o começo do mundo. Noé viu a malícia dos homens no mais alto grau e mereceu salvar o mundo em sua pessoa pela esperança do Messias, do qual foi ele a figura. Abraão estava cercado de idólatras, quando Deus fez com que ele conhecesse o mistério do Messias, que ele saudou de longe. No tempo de Isacc e de Jacó, a abominação estava espalhada sobre toda a terra: mas, esses santos viviam na fé; e Jacó, morrendo e abençoando seus, filhos, exclama, num transporte que o obrigou a interromper seu discurso: Eu espero, meu Deus, o Salvador que prometeste: Salutare tum expectabo, Domine.
Os egípcios estavam infectados de idolatria e de magia; o próprio povo de Deus era influenciado por seus exemplos. No entanto, Moisés e outros acreditavam naquele que não viam e o adoravam olhando para os dons naturais que ele lhes preparava.
Os gregos e os latinos, em seguida, fizeram reinar as falsas divindades; os poetas fizeram cem diversas teologias: os filósofos se separaram em mil seitas diferentes: no entanto, havia sempre, no coração da Judeia, homens escolhidos que presidiam à vinda de um Messias que só por eles era conhecido.
Ele veio, enfim, na consumação dos tempos: e, desde então, viram-se nascer tantos cismas e heresias, tantos desmoronamentos de Estados, tantas mudanças em todas as coisas; e essa Igreja a que adora aquele que sempre foi adorado subsistiu sem interrupção. E o que é admirável, incomparável e inteiramente divino, é que essa fé que sempre durou foi sempre combatida. Mil vezes esteve na iminência de uma destruição universal; e, todas as vezes que se achou nesse estado, Deus tornou a levantá-la com golpes extraordinários de potência. É assombroso que assim seja e que ela se mantenha sem dobrar-se e curvar-se sob a vontade dos tiranos.
Os Estados pereceriam se não se fizesse com que as leis se submetessem frequentemente à
necessidade. A fé, porém, nunca sofreu isso, nunca usou disso. São necessários ou esses
acomodamentos ou milagres. Não é de estranhar que nos conservemos submissos, e isso não é propriamente manter-se; e ainda pereçam eles, enfim, inteiramente; não há o que tenha durado mil e quinhentos anos. Mas, que essa fé se mantenha sempre inflexível, isso é divino.
(Haveria obscuridade demais se a verdade não tivesse marcas visíveis. É admirável a de se
ter conservado sempre numa Igreja a e numa assembleia visível. Haveria claridade demais se só houvesse um sentimento nessa Igreja; mas, para reconhecer o que é verdadeiro, basta ver o que sempre existiu: com efeito, é certo que o verdadeiro sempre existiu e que nenhuma falsidade existiu sempre. Assim), o Messias foi sempre acreditado.
Os profetas o predisseram depois, predizendo sempre outras coisas cuja realização, verificando-se periodicamente entre os homens, assinalava a verdade de sua missão e, por conseguinte, a de suas promessas em relação ao Messias (Todos eles disseram que a lei que possuíam só gorava enquanto esperavam a do Messias e que, então, ela seria perpétua, mas que a outra dura eternamente; que, por isso, a sua lei e a do Messias da qual era ela a promessa, existiram sempre sol a terra. Com efeito, ela durou sempre, e Jesus Cristo veio em todas as circunstâncias preditas). Jesus Cristo fez milagres, assim como os apóstolos que converteram os pagãos; e, assim, realizando-se todas as profecias, o Messias está provado para sempre.”
Blaise Pascal in “Pensamentos”
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